Fan 2009

Vai ser realizado a partir do dia 3 até o dia 09 de novembro na Orla da Lagoa da Pampulha, o 5º Festival de Arte Negra, o FAN 2009. ESse ano com a presença de Gongos vindo da África, Caribe e Brasil.
Também o shows de artistas de várias partes do mundo.

Portas Abertas

Este artigo foi extraído do SIWAJU nº 3 de maio de 1989

Eu me lembro. Leitor assíduo que fui da revista O CRUZEIRO e fã incondicional de Raquel Queiroz e das suas crônicas na ÚLTIMA PAGINA, me lembro agora, especialmente, de quando a Raquel nos contava do seu espanto quando, ainda menina, viu espocar um flash, dentro da igreja.

Alguém acabara de fotografar o Santíssimo na hora da elevação, no momento em que todos, de joelhos, e cabeças baixas sequer se atreviam a levantar os olhos na direção do Sacerdote. Naquele momento pairava no ar uma reação comum a todos os fiéis, SACRILÉGIO.

Claro que o momento já vai longe, perdido no tempo e no espaço. Os tempos mudaram. Sacrilégios à parte, a televisão ai está. Fuçando as entranhas daquilo ou daqueles, que se permitem vasculhar. A falta de decoro ou a profanação não parte do entrevistador, mas do entrevistado. Alguém fotografou o Santíssimo e estarreceu Raquel porque a porta da igreja já estava aberta. E porta aberta, para o incrédulo, para o ateu e até mesmo para o indeciso é um convite ao aproveitamento, quer seja para o bem ou para o mal.

Os terreiros de Candomblé sempre mantiveram as portas de entrada de seus barracões abertas a quem quer deseje ali entrar e participar dos eventos. Mesmo no tempo da repreensão policial. Aliás, a própria estrutura religiosa não permite outra postura. Do mesmo modo assim também procedem as diversas manifestações da religião afro-brasileira. Mas, é bom lembrar tudo o que podia se tornar público o era, no barracão e somente ali. As outras portas se mantinham fechadas aos não portadores da iniciação necessária à manutenção do sagrado.

Hoje, alguns chefes dessas comunidades estão abrindo todas as portas de seus axés, permitindo assim, que elementos aproveitadores e nocivos se transforme em notícias de televisão espetando alfinetes em bonecos de plásticos, usando cânticos sagrados em músicas de blocos carnavalescos, fazendo despachos e falsas cerimônias religiosas em público, o que na maioria das vezes corresponde ou atende às expectativas de grupos interessados em desmoralizar as formas religiosas herdadas dos ancestrais africanos.

É bem verdade que essas “cenas” não abalam os autênticos chefes de terreiros, pois, esses bem sabem identificar o que de fato pode ser considerado sacrilégio. Esses sabem que os fatos gerados ou permitidos por aqueles não passam de autênticas palhaçadas promocionais. Entretanto o que esses não podem evitar é o receio de que leigos, os não menos avisados e de certa forma, até alguns iniciados participem dessas pantomimas e se envolvam com o mercenarismo praticado abertamente em nome do candomblé.

É necessário que esses “pais e mães de santo” percebam que os fazedores de Vídeo Clips não estão interessados em promover ou exaltar os valores da religião afro-brasileira, mas sim desenvolver um trabalho que os coloque em evidência como protagonistas da formação de acervo rico em cores, músicas e dança, no qual o aspecto religioso será sempre tratado como superstição no seu conteúdo etno-social.

É preciso dar um basta a essa permissividade. O dinheiro recebido não vale a pena.

Quando os fazedores de notícias, esses estão apenas cumprindo com o dever de assalariados de grupos poderosos e não têm nada a ver com as conseqüências geradas pelo o que foi ou não foi divulgado. A culpa, volto a dizer, cabe a quem os permite entrar por aquelas portas que em verdade não deveriam estar abertas a qualquer um.

*Everaldo Duarte Agbajigan

EVOLUIR SEM PERDER A ESSÊNCIA*

Esse artigo foi extraído do SIWAJU nº 3 de maio de 1989

Quem são os verdadeiros profanos que participam da lavagem das escadarias da igreja do Bonfim e outras?

Quais são as pessoas que incentivam e promovem esses eventos? Se não sabemos não queremos ou não podemos culpar os verdadeiros responsáveis, porque atribuir aos humildes preservadores da cultura, da religião afro-brasileira e seus segmentos, todo aquele animadíssimo cortejo que tem seu início com a concentração no Largo da igreja da Conceição da Praia, de onde sai para o adro do Bonfim?

O cortejo é formado por uma maioria de falsas baianas, umas poucas daquelas autênticas que gostam e continuam pensando ainda nos velhos tempos, por políticos e autoridades de diversos setores governamentais, estaduais e municipais, principalmente pelo Departamento de Turismo, distribuindo verbas com Federações e outras Instituições afro-brasileiras para promoverem o cortejo e a lavagem. Sem falar de trios elétricos, a maior coqueluche dos baianos atualmente, as agências de Turismo, hotéis de várias estrelas, grupos carnavalescos, os turistas e até mesmo os Bombeiros que se misturam com o cortejo no Largo e nas escadarias do Bonfim.

Todo esse negócio é interessante e quem achar que deve tirar proveito de tudo isso que tire, mas que não envolvam as pessoas dos terreiros afro, para evitar que fiquem publicando notas nos jornais acusando nossa gente de profanos e folcloristas. Notas como esta da Veja do dia 08/02/89, p.10, que diz: “ A propósito da reportagem Fé dividida do 18/01/89, sou a favor do Cardeal D. Lucas que não pode compactuar com cultos afro-brasileiros que agem sob a capa do folclore. Os verdadeiros católicos não devem se omitir” . Ass. Luiz Eduardo Alves de Siqueira- S.Paulo.

Algumas dessas notas por coincidência ou não, já começaram a surtir efeito. Na lavagem das escadarias da igreja da Pituba, as pessoas mais humildes, as baianas, por exemplo, que vendem acarajé, causaram surpresa não comparecendo à lavagem de acordo aos anos anteriores. O clima era de desânimo nos festejos que antes era um dos mais movimentados.

Espero que todas as pessoas iniciadas ou participantes de Terreiros, omõ orixá, vudunsi e outros sigam o exemplo dessas baianas vendedoras de acarajé para evitar os maus comentários que andam fazendo, procurando assim se valorizar e valorizar o seu axé.

Deixem que os chefes das igrejas e as pessoas que eles acharem conveniente façam a lavagem das escadarias das igrejas ao modo deles. Se bem que não foi da forma que se vê hoje, que os negros idealizaram lavar a igreja do Bonfim.

Muito tempo antes de ter aparecido um Babalorixá, ou Pai de Santo, irresponsável, causador de toda essa polêmica que está existindo hoje sobre a lavagem do Bonfim, essa lavagem era feita pelas pessoas das tradicionais casas de culto afro de Salvador, onde a maioria delas pertenciam a várias irmandades, com muita ordem e respeito.

Mesmo porque os negros quando pensaram em fazer essa lavagem, uma vez que tinham associado Senhor do Bonfim a Oxalá, foi procurando reviver uma grande procissão de uma cerimônia que até a data de hoje é realizada na cidade de Ifon, área que está situada ao noroeste de Oxôbô na Nigéria, aonde Orixalá, Orixá Olufon, ou Oxalufon é padroeiro dessa área, e uma vez por ano, a maior parte dos habitantes dessa área vão de manhã bem cedinho buscar água no rio para asseiar o assentamento e colocar no lugar de adoração e preceito de Orixá.

É o que acontece também aqui nos tradicionais terreiros de Salvador. Todos os anos no ciclo da festa de Oxalá, mais conhecido por “Água de Oxalá” quando é venerado aquele mesmo Orixá-Olufon de acordo com a tradição. Levando em consideração que até as escadarias do monumento e teatro Castro Alves, do Porto da Barra e outras, até de Bar e Lanchonetes, passaram a fazer parte do ciclo e da lavagem do Bonfim, seria da maior importância que as verdadeiras baianas, as pessoas membros dos diversos cultos afro-brasileiro aqueles poucos que ainda participam, em respeito à fidelidade aos nossos antepassados e a si próprios, pensassem bem no que vem acontecendo e deixassem de participar desses eventos, principalmente da lavagem do Bonfim a partir do próximo ano, deixando assim um espaço bem claro para os chefes religiosos católicos da Bahia, especialmente de Salvador, enxergarem bem que os profanos folcloristas da lavagem do Bonfim não são os descendentes e preservadores da tradição e cultura afro-brasileira, e sim os católicos, seus próprios seguidores.

Vamos procurar valorizar e engrandecer cada vez mais o sentido verdadeiramente sagrado no ciclo anual das águas de Oxalá nos diversos terreiros que até hoje celebram a liturgia de nossos ancestrais, para nos fortalecer cada vez mais, fortalecer o nosso Axé e o Axé de todas as comunidades terreiros tradicionais da Bahia, lembrem-se de que já estamos em uma nova era. Os homens já vão à lua, vivem meses no espaço, através da medicina vasculham todo o interior do corpo humano fazendo transplante de alguns de seus órgãos e nós não podemos continuar pensando do mesmo modo que nossos antepassados pensavam com relação aos seus senhores, a cem anos passados. Nós temos que evoluir acompanhando o desenvolvimento dos tempos, mas sem perder a essência do nosso valor cultural. Apesar de não sermos totalmente libertos, temos hoje outra liberdade muito diferente daquela que deram aos nossos antepassados na ocasião da abolição. Hoje queiram ou não, temos o direito como cidadãos brasileiros de professar qualquer uma religião que nos seja conveniente.

Assim sendo, todos os Babá, Iyalorixá, Tata, Doné, Nengua e todos os iniciados e seguidores da religião afro-brasileira, podem e devem procurar acabar com o que chamam de sincretismo. Os negros de hoje para manterem viva a religião dos seus antepassados, não é mais preciso dizer que Santo Antonio é Ogum, São Jorge, Oxossi e Senhor do Bonfim, Oxalá, desde quando sabemos perfeitamente que nada disso é real. Vamos todos juntos caminhar para a realidade, deixando o nosso Senhor do Bonfim lá na igreja com os seus fiéis e continuando a adorar Oxalá, Oxalufon, como sempre no seu devido lugar que é nos terreiros da religião afro-brasileira.

*Mestre Didi-Alapini
Salvador, janeiro, 1989

Editorial

É com muito orgulho que o INTECAB/MG inaugura o seu primeiro boletim eletrônico, depois de muita batalha, muita luta e sem recursos financeiros.

Com empenho e dedicação, o SIWAJU de Minas Gerais divulga artigos e programações culturais do Estado, no intuito de desenvolver suas ações e preservar tanto os valores de nossa Tradição, quanto o nosso lema: União na Diversidade.

No sentido de cumprir as metas estabelecidas no Encontro Nacional do INTECAB em Salvador em 2007, estamos realizando mais uma importante etapa, que é a criação de instrumentos de divulgação de nossas atividades para a comunidade em geral.

Coordenação de Minas Gerais