Esse artigo foi extraído do SIWAJU nº 3 de maio de 1989
Quem são os verdadeiros profanos que participam da lavagem das escadarias da igreja do Bonfim e outras?
Quais são as pessoas que incentivam e promovem esses eventos? Se não sabemos não queremos ou não podemos culpar os verdadeiros responsáveis, porque atribuir aos humildes preservadores da cultura, da religião afro-brasileira e seus segmentos, todo aquele animadíssimo cortejo que tem seu início com a concentração no Largo da igreja da Conceição da Praia, de onde sai para o adro do Bonfim?
O cortejo é formado por uma maioria de falsas baianas, umas poucas daquelas autênticas que gostam e continuam pensando ainda nos velhos tempos, por políticos e autoridades de diversos setores governamentais, estaduais e municipais, principalmente pelo Departamento de Turismo, distribuindo verbas com Federações e outras Instituições afro-brasileiras para promoverem o cortejo e a lavagem. Sem falar de trios elétricos, a maior coqueluche dos baianos atualmente, as agências de Turismo, hotéis de várias estrelas, grupos carnavalescos, os turistas e até mesmo os Bombeiros que se misturam com o cortejo no Largo e nas escadarias do Bonfim.
Todo esse negócio é interessante e quem achar que deve tirar proveito de tudo isso que tire, mas que não envolvam as pessoas dos terreiros afro, para evitar que fiquem publicando notas nos jornais acusando nossa gente de profanos e folcloristas. Notas como esta da Veja do dia 08/02/89, p.10, que diz: “ A propósito da reportagem Fé dividida do 18/01/89, sou a favor do Cardeal D. Lucas que não pode compactuar com cultos afro-brasileiros que agem sob a capa do folclore. Os verdadeiros católicos não devem se omitir” . Ass. Luiz Eduardo Alves de Siqueira- S.Paulo.
Algumas dessas notas por coincidência ou não, já começaram a surtir efeito. Na lavagem das escadarias da igreja da Pituba, as pessoas mais humildes, as baianas, por exemplo, que vendem acarajé, causaram surpresa não comparecendo à lavagem de acordo aos anos anteriores. O clima era de desânimo nos festejos que antes era um dos mais movimentados.
Espero que todas as pessoas iniciadas ou participantes de Terreiros, omõ orixá, vudunsi e outros sigam o exemplo dessas baianas vendedoras de acarajé para evitar os maus comentários que andam fazendo, procurando assim se valorizar e valorizar o seu axé.
Deixem que os chefes das igrejas e as pessoas que eles acharem conveniente façam a lavagem das escadarias das igrejas ao modo deles. Se bem que não foi da forma que se vê hoje, que os negros idealizaram lavar a igreja do Bonfim.
Muito tempo antes de ter aparecido um Babalorixá, ou Pai de Santo, irresponsável, causador de toda essa polêmica que está existindo hoje sobre a lavagem do Bonfim, essa lavagem era feita pelas pessoas das tradicionais casas de culto afro de Salvador, onde a maioria delas pertenciam a várias irmandades, com muita ordem e respeito.
Mesmo porque os negros quando pensaram em fazer essa lavagem, uma vez que tinham associado Senhor do Bonfim a Oxalá, foi procurando reviver uma grande procissão de uma cerimônia que até a data de hoje é realizada na cidade de Ifon, área que está situada ao noroeste de Oxôbô na Nigéria, aonde Orixalá, Orixá Olufon, ou Oxalufon é padroeiro dessa área, e uma vez por ano, a maior parte dos habitantes dessa área vão de manhã bem cedinho buscar água no rio para asseiar o assentamento e colocar no lugar de adoração e preceito de Orixá.
É o que acontece também aqui nos tradicionais terreiros de Salvador. Todos os anos no ciclo da festa de Oxalá, mais conhecido por “Água de Oxalá” quando é venerado aquele mesmo Orixá-Olufon de acordo com a tradição. Levando em consideração que até as escadarias do monumento e teatro Castro Alves, do Porto da Barra e outras, até de Bar e Lanchonetes, passaram a fazer parte do ciclo e da lavagem do Bonfim, seria da maior importância que as verdadeiras baianas, as pessoas membros dos diversos cultos afro-brasileiro aqueles poucos que ainda participam, em respeito à fidelidade aos nossos antepassados e a si próprios, pensassem bem no que vem acontecendo e deixassem de participar desses eventos, principalmente da lavagem do Bonfim a partir do próximo ano, deixando assim um espaço bem claro para os chefes religiosos católicos da Bahia, especialmente de Salvador, enxergarem bem que os profanos folcloristas da lavagem do Bonfim não são os descendentes e preservadores da tradição e cultura afro-brasileira, e sim os católicos, seus próprios seguidores.
Vamos procurar valorizar e engrandecer cada vez mais o sentido verdadeiramente sagrado no ciclo anual das águas de Oxalá nos diversos terreiros que até hoje celebram a liturgia de nossos ancestrais, para nos fortalecer cada vez mais, fortalecer o nosso Axé e o Axé de todas as comunidades terreiros tradicionais da Bahia, lembrem-se de que já estamos em uma nova era. Os homens já vão à lua, vivem meses no espaço, através da medicina vasculham todo o interior do corpo humano fazendo transplante de alguns de seus órgãos e nós não podemos continuar pensando do mesmo modo que nossos antepassados pensavam com relação aos seus senhores, a cem anos passados. Nós temos que evoluir acompanhando o desenvolvimento dos tempos, mas sem perder a essência do nosso valor cultural. Apesar de não sermos totalmente libertos, temos hoje outra liberdade muito diferente daquela que deram aos nossos antepassados na ocasião da abolição. Hoje queiram ou não, temos o direito como cidadãos brasileiros de professar qualquer uma religião que nos seja conveniente.
Assim sendo, todos os Babá, Iyalorixá, Tata, Doné, Nengua e todos os iniciados e seguidores da religião afro-brasileira, podem e devem procurar acabar com o que chamam de sincretismo. Os negros de hoje para manterem viva a religião dos seus antepassados, não é mais preciso dizer que Santo Antonio é Ogum, São Jorge, Oxossi e Senhor do Bonfim, Oxalá, desde quando sabemos perfeitamente que nada disso é real. Vamos todos juntos caminhar para a realidade, deixando o nosso Senhor do Bonfim lá na igreja com os seus fiéis e continuando a adorar Oxalá, Oxalufon, como sempre no seu devido lugar que é nos terreiros da religião afro-brasileira.
*Mestre Didi-Alapini
Salvador, janeiro, 1989